03/03/2023

Tempo do Fogo


Dias de fogo


Dia de mergulhar num silêncio limpo. Sem palavras, pensamentos, desculpas. Fechar os olhos e ver as fendas dos nossos "templos", avaliar os estragos do que se desgastou e quebrou dentro de nós. Nem sempre temos a coragem de o fazer. Hoje é o dia.

O caminho começa aqui. Na profunda consciência da inutilidade de pensamentos, padrões de comportamento, apegos com o carimbo da posse...ou da salvação que é um outro modo de poder. De nos atribuirmos o lugar de deus. 

Lentamente, na dança do fogo, ir queimando uma a uma essas madeiras inúteis a que nos agarramos, como náufragos de uma viagem que terminou, mas nos recusamos a assumir o Fim.

Fazer de conta que temos um casamento feliz, uma carreira de sucesso, uma casa de sonho, um batalhão de amigos, etc...e muita publicidade a reforçar. Sobrevivemos com isto...famintos de Ser(mos).

Mas, quando toda a fachada é tocada pela sombra escura do nosso tempo a sós, cai a solidão. A angústia. Muitas vezes, nos bastidores silenciosos do mais íntimo de nós, acumulamos os destroços apodrecidos de viagens falhadas, misturados com os nossos desejos mais verdadeiros e puros que adiamos, ou escondemos, por receio, covardia, vergonha, ou por abandono do nosso verdadeiro Eu. Somos crianças abandonadas por nós mesmos... somos crianças abusadas e traídas por nós mesmos...

Corremos atrás de um qualquer Eu que gostaríamos de ser e não somos. Como poderíamos ser o Eu de um Outro? Transformamo-nos em seres atormentados por deixarmos a nossa casa única abandonada, por querer habitar a casa de um outro que achamos mais atraente. Ou habitamos a casa desse outro para salvar. O salvar! Que engano! Recusamo-nos a viver a nossa verdade, o jardim plantado por Deus, para sermos cópias de um outro ou o seu escravo. Ser como... o deus da nossa inveja a roer-nos...a velha questão do Génesis e da serpente. A velha questão da inveja. A velha questão do  poder. Se não posso ser como tu, vou fazer de tudo para te possuir. Se à mistura vier a posse em nome de Deus, melhor! Chamamos-lhe Lei. Atamos tudo com fios dourados e vivemos em simbiose socialmente aceite morrendo com um sorriso de botox todos os dias. 

A Vida. A Vida com o toque único que sou Eu, fica sozinha, sem luz, sem alimento,sem calor. Tudo por querer ser um Outro e construir palácios para de fora verem, mas que são masmorras do lado de dentro.

Quaresma é essa praia cheia de pedaços dos nossos barcos, onde fazemos pelo fogo a última viagem de tanta tralha que se nos cola à pele como sal! O Fogo que arde com a tralha das nossas ilusões finalmente assumidas. 

Talvez com essa Luz da nossa fogueira na praia, consigamos Ver o Jardim único, o nosso, que está ali por todo lado para o habitarmos. É O Nosso! A Nossa Viagem! Mas só o veremos queimando a tralha!

Tenha eu coragem para fazer a viagem sem a tralha que veio dar à praia...

Tenha eu força para fazer a fogueira.

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