01/01/2021

A Doutrina


(Imagem: cartilha da "Comunhão Solene" do meu pai)


Era domingo,  vestiram-me o melhor vestido e os sapatos de verniz. Disso eu gostei!

À minha volta zumbiam recomendações, a maior parte delas a começar por um "Não". 

Ia fazer o exame para a minha primeira comunhão. Sim, faziam-se exames! Seria comunhão "privada" antes de frequentar a catequese. 

Fui moldada pelo ensino doméstico da "doutrina", na versão da minha avó paterna. De nome Piedade, era uma mulher rígida, pouco afetuosa e, que levava à risca a sua missão de me fazer memorizar um rosário de orações, as necessárias para eu me aproximar do altar com os adultos. Meu Deus, o quanto me custou memorizar a "Salve Rainha"! Mas no dia designado, julgo que terá sido 27 de fevereiro, o mesmo dia do aniversário do meu pai e do meu batismo há 60 anos atrás, lá me apresentei ao abade de Paranhos.

Era um homem corpulento, com uma voz autoritária. Imenso! Eu, na altura dos meus 6 anos (a tal idade da razão, diziam)  fui presente ao inquiridor na sacristia da igreja. Ele olhou para mim de alto a baixo, sério. Religião era assim, sem sorrisos, achava eu… e começou a perguntar...Pai nosso??… Ave Maria??…mas, eu fiquei qual estátua de sal! Nem uma palavra saiu  da minha boca! Irritado, ele insistia. Aterrorizada, eu engolia a "Doutrina" mal digerida e só queria fugir dali! O abade, do cimo da sua sobranceria virou-se para os meus pais, envergonhados com a minha triste figura e disse-lhes: "Eu só permito que ela comungue, porque sei a família de onde vem"!!

Eu não percebi nada. Mas na missa que se seguiu, fui encaminhada para a fila  da comunhão e entrei para a equipa dos grandes!  Queria sentir-me feliz, mas não...foram tantos os avisos, os sinais proibidos, que só pensava que já estava farta daquela "idade da razão"! Afinal, a partir daquele dia estava sujeita a uma série de interdições. E nesse mesmo dia, senti que tinha perdido a inocência...algo se tinha quebrado dentro de mim…

E foi assim que comecei a ter consciência do que era ser cristã. Já sabia que o era por vontade dos meus pais através do batismo. Sentia pertença a este termo "cristã", como se fosse uma espécie de sangue que me corria nas veias igual ao da família. Mas não sabia a razão… Por isso, naquele dia não percebi o significado de ser admitida "à mesa"...

Coisas do outro século…

Mas, aqui estou, com mais um dígito na idade à frente do 6. 60!

De regresso às origens! Rumo casa de partida...

Agora com caminho feito e, certamente,  com a inocência resgatada! Em busca do que é esta família de cristãos unidos pelo mesmo Jesus. 

Numa espécie de "exame" que a mim mesma me coloco, agora na idade madura …

Sem abade mostrengo, mas em confronto com os meus "mostrengos" . Com todas as deFormações que a vida armazenou em mim. Com todos os seus encantos.

Sou eu mesma a propor-me a "exame". A correr riscos com a Fé, porque aprofundá-la é correr o risco de a perder…ou não!

Sei que já não a perco, mas conheço-lhe os silêncios. 

O tempo dos anjinhos e da adesão inocente ao pensamento mágico ainda me habita, Graças a Deus! Mas também me mordem as dúvidas, as inquietações e, o pior de tudo, as certezas…

Da Vida, sei do êxtase e sei do deserto. Mas, já não tenho medo como quando tinha 6 anos e achava que religião era coisa de memória e de gente sem sorrisos.

 A Fé é um caso sério e estou nesta relação há demasiado tempo, para não saber a trabalheira que dá explicar o inexplicável…

O Scala é a oportunidade de que estava à espera.

Finalmente, vou (re)Começar!




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