(Imagem: cartilha da "Comunhão Solene" do meu pai)
Era domingo, vestiram-me o melhor vestido e os sapatos de verniz. Disso eu gostei!
À minha volta zumbiam recomendações, a maior parte delas a começar por um "Não".
Ia fazer o exame para a minha primeira comunhão. Sim, faziam-se exames! Seria comunhão "privada" antes de frequentar a catequese.
Fui moldada pelo ensino doméstico da "doutrina", na versão da minha avó paterna. De nome Piedade, era uma mulher rígida, pouco afetuosa e, que levava à risca a sua missão de me fazer memorizar um rosário de orações, as necessárias para eu me aproximar do altar com os adultos. Meu Deus, o quanto me custou memorizar a "Salve Rainha"! Mas no dia designado, julgo que terá sido 27 de fevereiro, o mesmo dia do aniversário do meu pai e do meu batismo há 60 anos atrás, lá me apresentei ao abade de Paranhos.
Era um homem corpulento, com uma voz autoritária. Imenso! Eu, na altura dos meus 6 anos (a tal idade da razão, diziam) fui presente ao inquiridor na sacristia da igreja. Ele olhou para mim de alto a baixo, sério. Religião era assim, sem sorrisos, achava eu… e começou a perguntar...Pai nosso??… Ave Maria??…mas, eu fiquei qual estátua de sal! Nem uma palavra saiu da minha boca! Irritado, ele insistia. Aterrorizada, eu engolia a "Doutrina" mal digerida e só queria fugir dali! O abade, do cimo da sua sobranceria virou-se para os meus pais, envergonhados com a minha triste figura e disse-lhes: "Eu só permito que ela comungue, porque sei a família de onde vem"!!
Eu não percebi nada. Mas na missa que se seguiu, fui encaminhada para a fila da comunhão e entrei para a equipa dos grandes! Queria sentir-me feliz, mas não...foram tantos os avisos, os sinais proibidos, que só pensava que já estava farta daquela "idade da razão"! Afinal, a partir daquele dia estava sujeita a uma série de interdições. E nesse mesmo dia, senti que tinha perdido a inocência...algo se tinha quebrado dentro de mim…
Coisas do outro século…
Mas, aqui estou, com mais um dígito na idade à frente do 6. 60!
De regresso às origens! Rumo casa de partida...
Numa espécie de "exame" que a mim mesma me coloco, agora na idade madura …
Sem abade mostrengo, mas em confronto com os meus "mostrengos" . Com todas as deFormações que a vida armazenou em mim. Com todos os seus encantos.
Sou eu mesma a propor-me a "exame". A correr riscos com a Fé, porque aprofundá-la é correr o risco de a perder…ou não!
Sei que já não a perco, mas conheço-lhe os silêncios.
O tempo dos anjinhos e da adesão inocente ao pensamento mágico ainda me habita, Graças a Deus! Mas também me mordem as dúvidas, as inquietações e, o pior de tudo, as certezas…
Da Vida, sei do êxtase e sei do deserto. Mas, já não tenho medo como quando tinha 6 anos e achava que religião era coisa de memória e de gente sem sorrisos.
A Fé é um caso sério e estou nesta relação há demasiado tempo, para não saber a trabalheira que dá explicar o inexplicável…
O Scala é a oportunidade de que estava à espera.

Sem comentários:
Enviar um comentário