"Como podiam os raios de Deus caber no coração?
No entanto,
quando o procuras aí o encontras,
não desde o ponto de vista da contenção
que leva a dizer que a luz está nesse lugar
Encontrá-la-ás através desse lugar..."
Rumi
Não consigo dizer com precisão quanto comecei a ter a noção consciente de "Deus". Recuando à primeira infância, lembro-me de conviver com este "adulto", mal dei conta de mim como ser consciente. Sentia-O como um Familiar de respeito. Observava a reverência dos meus pais e avós perante este parente de quem eu não conhecia a foto... mas a torto e a direito tropeçavam Nele e chamavam-nO pelo Nome: "Ai meu Deus!" "Deus queira..." "Deus castiga" "Deus tudo vê..." "Deus te ajude!", o certo é que "Deus" foi surgindo na minha mente imatura de miúda, como uma espécie de baby-siter dos pais, quando o olhar deles não estava a ver o que eu fazia. Aliás, nesse tempo, os pais faziam questão de advertir as crianças de que fizessem o que fizessem, "Deus":
Via Tudo!
Ouvia tudo!
Sabia os nossos pensamentos!
Estava em Todo o lado!
Podia Tudo!
Mas...ninguém o via…
Assim, Deus foi conquistando espaço como "A Presença" que me acompanhava quando estava sozinha… Pois estendesse eu um braço, tocava em Deus. Estivesse triste ou alegre, Deus também sabia isso. Pelo menos Ele sabia isso. Mesmo que os parentes de casa nem dessem pelo ruído das minhas tristezas… ou estivessem atentos às minhas fantasias. Cresci a sentir-me invisível. Só esse Deus pelos vistos, via-me e ouvia-me! Aceitava-me tal qual eu era, uma Maria-rapaz sempre a levar nas orelhas dos outros adultos, por não obedecer à visão da menina prendada da família…
Tive sorte, admito, porque Deus podia ter sido sentido por mim como terror. Mas nessa fase antes dos 5/6 anos, Deus era "simpático". Eu brincava sozinha e Ele já era, sem eu saber, o TU a quem eu contava as minhas histórias. Talvez Deus se tenha engraçado de mim e divertido com as minhas fantasias e nunca tive muito medo Dele, embora me transmitissem que Ele era de temer. Confesso que tinha muito mais medo de outros parentes lá de casa…
Nessa fase do meu desenvolvimento, Deus surgia como uma Casa de Colo, embora neste Jogo da Glória onde se avança e recua, tudo apontasse que poderia ter sido uma Casa de Medo, de cobrança pela má sorte de ter feito asneira. Mas, ao jogar os dados da minha primeira infância, Deus foi para mim uma Casa de Confiança e era o meu Colo na ausência do afeto que eu ansiava. Ele não me julgava. Não tinha espectativas. Era Presente e estava Presente. Deus era o Tu imenso como o mundo que eu intuía pela frente. Era diferente de mim, mas algo me dizia no fundo do meu coração, que eu já O conhecia. Ele era de casa e, mais Família do que os meus parentes de sangue.
Cresci e Deus começou a ficar mais difícil… davam-lhe nomes. Dividiam-no em três e colocavam-lhe o nome de Pai e de Filho. O Espírito Santo só voou mais tarde. Com a idade da razão, esse vírus da razão que me contaminou a inocência, Deus que era simples e leve como o ar, precisou de razão para Ser e, ficou tudo muito mais pesado. Estranho. Complicado.
Com a entrada na escola, o meu Amigo silencioso que me dava colo foi-se diluindo. Viria a encontrá-lo muito mais tarde…
Penso que para muita gente, eu incluída, a ideia de Deus é primeiramente percecionada numa parceria com a mãe! Deus reveste-se de atributos de afeto e de nutrição. Para quem teve uma matriz cristã como eu tive, a religião vinha no kit desde a barriga da mãe. Crescíamos a falar a língua materna e a religião fazia parte dos ciclos da dinâmica familiar. Deus era e não se discutia. Afinal, ninguém reclama da língua com que aprende a comunicar! Do mesmo modo que a fome física era saciada pelos pais, a fome de transcendência era também saciada, tapada, na hora, com a Fé dos pais. A língua sobre Deus confundia-se com a língua materna e, a perceção do mundo era por isso, também condicionada pelo modo como Deus era vivido por aqueles que nos rodeavam.
Só que…
De Deus nada sabemos...e, o Deus que muitas vezes nos apresentam, é cheio de certezas. Tão certinho!! Mas quando queremos provas da sua existência, e deixamos de ser como as crianças, Ele ri-se e afasta-se de nós de imediato, ou...talvez sejamos nós a sair do Seu habitat..
Dá-nos tempo para lavarmos os olhos e O vermos a partir de dentro. Aí, talvez lhe possamos encontrar os sinais…
"O sopro onde quer, sopra. E ouves a sua voz. Mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do espirito." (Jo, 3:8)
Tantas vezes como adultos, colocamo-nos perante a problemática de Deus na perspetiva da criança abandonada. O trauma do abandono de um Deus que nos deixaria à deriva num universo descomunal! O tema da angústia existencial coloca-se e, a vida fica cinzenta, sem marcos orientadores do devir da existência. Deus estaria algures num início qualquer, mas o vínculo, o cordão umbilical divino rompeu-se e a criatura sente-se perdida, com o universo às costas e sem GPS para tanta viagem!
Quem faz acompanhamento psicológico ouve com frequência relatos sobre abandono. Nas salas dos psis, adultos de todas as idades trazem em carne viva a criança ferida, abandonada pelo pai, ou pela mãe, ou pelos dois...ou por Deus. Algures na sua história, Deus "parte" , quase sempre pouco tempo depois, ou coincidente com o trauma da partida, ou desilusão de um familiar, de um amigo. Será um caminho doloroso cuidar destas narrativas abandónicas e, reconstruir as condições, para que esse adulto possa sentir/perceber que será ele no presente, como adulto, que terá de nutrir e serenar essa criança em sofrimento que ainda pulsa dentro de si. Só ele a pode salvar. Só ele se pode salvar!
Contudo, a par da criança abandonada, existe dentro de cada um de nós aquilo que Jung chama a criança divina. Ela é aquele ímpeto de esperança que cada um tem quando nasce, e respira pela primeira vez. É tudo o que o anima no fundo mais fundo de si. Isso, é maior do que o Eu que construiu. A criança divina é uma fonte de criatividade e sonho, de vivacidade e confiança, de força e energia. No entanto, só quando me permito reconhecer a criança ferida, se torna possível vislumbrar a criança divina, recuperá-la, porque se olhou as feridas e, nesses rasgões, ela foi avistada como o tesouro escondido com o lacre do divino.
C.G.Jung fala desta criança divina como uma imagem arquetípica que tem em si o poder de renovar a vida. De ir ao sofrimento curar a criança ferida. O encontro com a criança divina e a aprendizagem de reconhecimento dela, desencadeia uma onda de criatividade, de fluxo rumo à matriz mais profunda do nosso ser. Em última análise, ao Santo dos Santos de cada um, onde Deus cunhou a sua impressão digital e nos deu um nome…
Ele está por aí…
Tantas vezes com a vida virada do avesso, é uma imagem de algo que nos encheu de alegria na infância, aquilo que tem o poder de acordar em nós a vivacidade, quando a vida está parada, ou em carne viva. Conseguir preservar o dom da infância no seu estado mais puro, é uma arte, um projeto e um dom. Intuir a fonte límpida do desejo, onde ainda coincide o Desejo que Deus tatuou em nós, com o desejo que nos move a agir, é uma tarefa trabalhada pelo interior. A oração pode ser um dos caminhos para aceder a essa zona mais arcaica e mágica dentro de cada um. Para outros, poderá ser a arte, alguma prática meditativa, ou um processo psicoterapêutico . Certo é que essa criança divina tem a chave para nos recordar quem somos. Não por acaso Jesus falava tão bem das crianças…
"Deixai as crianças e não as impeçais de virem até mim, pois delas é o reino dos céus." (Mat 19:14)
Inspirações:
BUBER, Martin. Eu e Tu. Prior Velho: Paulinas editora, 2014
DOLTO, Françoise, SÉVÉRIN, Gerard. La foi au risque de la psychanalyse. Editions du Seuil,1981
GRÜN, Anselm. Fontes da Força Interior. Pétropolis, RJ: Vozes,2007
LOURENÇO,Frederico. Bíblia vol I. 1ª ed Lisboa: Quetzal, 2016
RUMI, Mevlana. A Sabedoria do Coração. Carcavelos: Coisas de Ler, 2005

Sem comentários:
Enviar um comentário