Hoje celebra-se a Transfiguração de Jesus. Desde que dei conta que este dia era celebrado com uma dignidade especial, afeiçoei-me a ele. Cair no mês de Agosto também ajudou a gostar do sabor a Luz que este dia traz, porque a experiência de retiro, de ruptura com o quotidiano a que Jesus convida alguns apóstolos, lembra-me sempre Férias!! Fazer a experiencia do Tempo de um modo diferente. No caso daquele punhado de homens, eles deixam os outros no sopé do monte e vão fazer um trail de nível médio - achavam eles- com Jesus como guia…
E volto ao que escrevi no texto do dia 4...
De algum modo esta experiência do Scala, tem sido vivida por mim neste tropeço de subir o monte, com a sede de ensinamento/vivência que tinham os apóstolos, mas ao mesmo tempo e de um modo intenso, também experimentando uma profunda desorientação cheia de Vida, como eles!
Achando ser apenas espectadora como se sentiram os apóstolos e, querendo fazer uma tenda para conter a Luz...
E ando nisto de tentar costurar uma tenda toda kitada para conter o que desencadeia em mim o Scala, chamam a isso reflexão, e a meter os pés pelas mãos nesse projeto. Vamos montar três tendas...
E aconteceu-me a insónia do dia 4 e a chegada deste dia. Percebi o quanto os "trabalhos finais" dos blocos, afinal são sentidos para mim como uma espécie de dissonância no meu processo de elaboração dos conteúdos...sinto-me um Pedro encadeado a tentar arrumar e dar ordem a um toque de divino...a tentar fechar rapidamente todas as portas e janelas que a Luz de repente abriu! Como se tudo não passasse de uma rajada de vento que desassossegou a rotina.
Mas não…
O que tenho sentido nestes meses de Scala tem sido este encontro tão próximo com os nossos da Fé que partilhamos, com todos os Elias e Moisés da nossa vida como cristãos. Um encontro desafiante com este Jesus que transpira a subir o monte e tem pulmões humanos. Mas que também fecha os olhos para Ver o Pai e, faz Silêncio para Falar e Ouvi-Lo melhor.
É Ele quem nos ensina o Caminho que une Tudo e transfigura o Tempo: o Silêncio e a Oração.
Também eu neste momento da minha vida, preciso de espaço e de tempo (com letra pequena), para tirar da mochila tudo o que me (de)formou como cristã.
Estou no cimo do monte, trago uma mochila cheia de Vida. Detenho-me a olhar estes "três" personagens que ao longo destes meses de curso se revestiram de uma luz incrível! Tiro da mochila todas as "fotos" que ao longo da vida tirei destes da minha Família e, refaço o álbum…
Preciso de Tempo…
Preciso de Silêncio...
A jornada que o Scala está a ser para mim não é turismo.
É tao séria como cuidar da saúde
É tao séria como cuidar da vida.
E tão séria como os 4 anos de psicanálise que fiz.
Estou atordoada como aqueles três ao descer o monte. Jesus recomenda que nada digam do que se passou ali. Ainda não era o Tempo das palavras. Esse tempo, o das palavras, chegou passado pouco tempo. Todas as palavras se soltariam depois de um rolar de pedra. O Verbo rolou e continua a fazer estragos passados mais de 2000 anos...
Mas eu, regredi à Transfiguração e preciso de tempo para poder dizer "coisas" sobre a Luz. No meu jeito.
Pois para lá de toda a partilha de conteúdos e o que desencadeia de trabalho intelectual o Scala mexe com a minha identidade. Não só a "cristã", como se "ser cristã" fosse um anexo a ser humana. Não!!! Mexe com a minha Identidade. Com quem sou. Com o jeito como vivo e sou para, e com os outros. Com o meu modo de me expressar. Com o jeito diferente com que agora leio a Bíblia e, já a leio diariamente desde os 13...
Mas eu sou todas as etapas de desenvolvimento que me trouxeram aqui. Todas as tarefas de vida que já cumpri, como bem explica Erikson nas 8 idades do Homem . E nesta etapa de maturidade com tarefas de vida já cumpridas, sinto-me como o Nicodemos...a nascer de novo.
Faço a descida do monte. Hoje é dia 6 de Agosto. Um dia especial para mim.
Em 2000, depois de um coma profundo de 3 semanas, o Fernando acordou e tentou articular as primeiras palavras após todo o trauma que 25 minutos de paragem cardiorrespiratória significam. Neste mesmo dia de agosto, mas em 2007, dois dias antes de morrer, a minha psicanalista e, amiga após a terapia concluída, telefonou com uma voz cheia de emoção, para me dizer:" vou ter muitas saudades suas! " e disse-o 3 vezes...foram as últimas palavras que lhe ouvi, estava muito doente e morreu no dia 8 de Agosto.
Este é um dia muito especial…
E o Scala também.
Sinto este fim do primeiro ano como o início.
Agora comecei o Scala! E que me perdoem os coordenadores se as minhas sínteses forem só isto...mas saibam que como diz o Tarkovski, não pode ser só isto...
"O verão partiu
e nunca devia ter vindo
será quente o sol
mas não pode ser só isto
tudo veio para partir
nas minhas mãos tudo caiu
corola de cinco pétalas
mas não pode ser só isto
nenhum mal se perdeu
nenhum bem foi em vão
à luz clara tudo arde
mas não pode ser só isto
agarra-me a vida
sob a sua asa intacto
sempre a sorte do meu lado
mas não pode ser só isto
nem uma folha se consumiu
nem uma vara quebrada
vidro límpido é o dia
mas não pode ser só isto"
Estou no meu tempo a tecer as diferentes cores desta extensa tapeçaria. Se na juventude tinha a noção de ainda ter muito tempo pela Terra, para ler muitos livros e, me dava ao luxo de me deter num apenas, e "perder" tempo a desenvolver em círculos o tema, agora não…
O Tempo mudou.
Mais do que "perder" muito tempo a explicar a beleza de um livro ou dois, de um tema, agora saboreio todos os livros que leio. Estendo-me nas palavras como se fossem a minha toalha de praia e ponho-me à conversa com os livros que fizeram caminho comigo no passado. São umas conversas e tanto! Não paro as leituras simultâneas que estou a fazer, só porque "tenho" de pôr cá fora uma "reflexão". Já não me posso dar a esse luxo como quando tinha 30 anos. Agora o Tempo encolheu...é ainda mais precioso! As margens criadas ilusoriamente pelo Tempo, por vezes desaparecem e, já vou navegando sem medo na Eternidade, de onde nunca saímos, mas que por ímpeto de sobrevivência, precisamos de arrumar para debaixo do tapete do Tempo… esse tapete cheio de pó que acumulamos, para um dia, Deus nos sacudir e nos fazer Ver de outro jeito o chão sem soalho onde estendemos o tapete…
Assim, a minha reflexão do Scala vai (a)parecer, coreografada pelo Tempo numa espécie de Diário…
Na cadência do "tambor de todos os ritmos".
A respirar o pó dos meu dias.
A caminhar (A)gosto...
Oração ao Tempo
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...
O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...
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