“[...] a experiência mística de todos os séculos, de todos os países e de todas as religiões demonstra que o auge do sentimento religioso consiste numa fusão entre objecto do culto e sujeito do culto, num transformar-se o amado na coisa amada, num aparecimento da unidade perfeita onde a dualidade existia. Para um observador de fora, um homem intrinsecamente religioso, em perpétuo êxtase religioso, poderia dar a impressão de não estar prestando nenhum culto a nenhum Deus e, na vida prática, esse homem comportar-se-ia com a alegria, a espontaneidade, o desprendimento do selvagem, sem que também fosse necessário, fatal, o aparecimento de qualquer espécie de rito: esse homem teria reconhecido Deus em si e nos outros e viveria, naturalmente, sem tu e sem eu, de igual para igual, num universo inteiramente divino”
(Agostinho da Silva, A Comédia Latina [1952], in Estudos sobre Cultura Clássica, p.305)
Acontece-me Deus…
Que posso fazer a não ser permanecer enquanto o consigo fazer?
Deixar que Ele me solte como se fosse um pássaro…na entrega ao voo e assumir o risco do imenso vazio?
Como diz Dostoievski no seu livro Os irmãos Karamazov :
"Somos assim: sonhamos o voo mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram."
Talvez seja esta porta, o Vazio. A experiência mística, como Voo nesse vazio ! A suprema Liberdade. O local exato onde o Ser de cada um se revela na sua essência mais pura. O olho do furacão onde paira uma tranquilidade intocada e improvável. A serenidade no centro de um turbilhão.
Este é o segredo dos místicos: o alinhamento na cadencia da respiração de Deus; no pulsar ritmado do Universo; na vivência como amantes e amados que procuram a união/fusão sem confusão. E como todos os que se amam profundamente e profusamente, vivem a dança cósmica a acontecer na quietude do corpo.
Um cair em si, que de tanto se desprender para se encontrar, mergulha num Vazio cheio de Presença…
De tão simples se torna um enigma.
De tão belo, se revela ocultando-se num pudor de Gratidão.
O Silêncio é a mão que desvela as palavras que só se sabem dizer sussurradas como véus a deslizar na pele.
O corpo estremece perante a evidência do Amor que não se deixa aprisionar por ritos ou pelas gaiolas dos nossos medos . Não precisa de certezas. A Vida exalta-se em cada célula e Deus é reconhecido pelo Beijo que nos deu como Corpo. Somos esse corpo, seja ele em forma humana, ou na constelação de Orion a brilhar no céu.
Sem comentários:
Enviar um comentário