"A porta de entrada para a terra silenciosa é uma ferida. O silêncio põe a nu esta ferida. Não viajamos longe no caminho espiritual antes de termos algum sentimento da ferida da condição humana e é precisamente por isto que não poucos abandonam uma prática contemplativa como a meditação assim que ela começa a expor esta ferida; eles passam, em vez disso, para algum entretenimento espiritual que irá manter a distração. Talvez seja por isto que os fracos e feridos, que conhecem muito bem a vulnerabilidade da condição humana, possuem frequentemente uma aptidão para descobrir o silêncio e podem sentir a integridade e cura que estão no fundo desta ferida"
21/08/2021
15/08/2021
Pausa para cair em si
“[...] a experiência mística de todos os séculos, de todos os países e de todas as religiões demonstra que o auge do sentimento religioso consiste numa fusão entre objecto do culto e sujeito do culto, num transformar-se o amado na coisa amada, num aparecimento da unidade perfeita onde a dualidade existia. Para um observador de fora, um homem intrinsecamente religioso, em perpétuo êxtase religioso, poderia dar a impressão de não estar prestando nenhum culto a nenhum Deus e, na vida prática, esse homem comportar-se-ia com a alegria, a espontaneidade, o desprendimento do selvagem, sem que também fosse necessário, fatal, o aparecimento de qualquer espécie de rito: esse homem teria reconhecido Deus em si e nos outros e viveria, naturalmente, sem tu e sem eu, de igual para igual, num universo inteiramente divino”
(Agostinho da Silva, A Comédia Latina [1952], in Estudos sobre Cultura Clássica, p.305)
10/08/2021
Casa do Coração
Permaneço no monte...o monte de Elias, de Moisés, de Jesus, também o monte de Teresa, a carmelita desvairada que apenas respondia ao Coração. Movia-se em direção a ele, saiu da cabeça, ela que pensava tão bem e, desenhou toda a sua vida em função de um espaço interior mais profundo, onde a Luz irrompe de dentro, sem limite a quem se atreve a fazer um caminho de intimidade profunda com o divino . O corpo tão desvalorizado e colocado como "o inimigo" por algumas correntes dominantes desse tempo, é levantado do chão. Com Teresa de Jesus o corpo retoma o seu lugar. É a foz onde chegam todas as vozes dos sentidos. O Amado não se reduz a uma construção mental, um avatar insípido. O Amado toca e é tocado. Incendeia e gosta de se tornar incandescente pelo Amor desvairado desta mulher que vai com Tudo! Sente e Pensa numa sintonia de perder o fôlego!
Ela cai profundamente em si. Não se detém a diminuir-se por ser mulher, por discordar do destino que lhe queriam dar. Pelo contrário, desde muito nova faz de tudo por mostrar a fibra de que era feita. A autenticidade e um carácter apaixonado movem-na a correr riscos. A obediência à autenticidade do seu ser fá-la sofrer. Muitas vezes em luta consigo mesma e com a sua natureza, Teresa vai aprendendo a paciência, a persistência, a permanência. Rende-se e aí dá permissão para se encher de humanidade e se despir de ilusões. Na oração como espaço priveligiado, Teresa deixa-se cair de amores. Sem filtro. Sem véus. Numa nudez absoluta perante o Amado. Uma nudez desejante e activa. Contra a corrente dos conselhos piedosos sobre a sexualidade feminina vigente, de negação do júbilo, ou sendo o júbilo coisa de mulheres da vida. Teresa é um rasgão na mortalha que a moralidade queria impor ao ser desejante feminino! Ela sente! Sente com o corpo todo! Deseja o seu Jesus com todas as células! E depois de o procurar Sempre! Mesmo quando ele se ausentava e a deixava sozinha, ela nunca desistiu de percorrer todos os caminhos, de conquistar todos os Castelos, de subir todos os montes para Nunca perder de vista Aquele que lhe enchia a Alma de Amor. Na oração, Teresa trabalha o músculo, o único que importa verdadeiramente. A zona vulcânica do coração! Ela tão inteligente, desliga a mente e religa o lugar onde dentro dela ela É! O lugar do respeito absoluto pela Verdade do seu Ser. Sem concessões.
Nesse local de profundo encontro, Teresa perde o fôlego por instantes, mas a seguir, inundada pela Vida de Quem lhe importa, Teresa respira fundo, enche de novo o coração e o peito e vai! Parte renovada para as circunstâncias da vida e torna-se co criadora do Reino. Viaja, funda conventos, escreve, comunica. Obedece à voz interior e ao guião da autenticidade mesmo que isso lhe custe caminhar na borda de um abismo...eram tempos de inquisição. Quase se viu enredada nessa teia tão negra...
Nesta jornada cheia de encanto desta Teresa de todos os desvarios, Teresa precisa de quem a entenda. A escute. A respeite. A estime. João da Cruz, alma também ela perdida de amores pelo Mestre é o interlocutor perfeito. Com metade da idade de Teresa, João é uma personalidade de tonalidades muito diversas de Teresa, mas torna-se o confidente, o ombro, a outra alma que a podia entender. É uma relação íntima na comunhão de uma espiritualidade intensa. Teresa e João têm sensibilidades muito diferentes perante o divino, mas é esta diferença que os faz complementares e inseparáveis: para a intensidade da Luz solar de Teresa, a noite escura da alma de João. Os dois magistrais na expressão da sua espiritualidade.
Teresa foi uma mulher extraordinária e se já ia lendo sobre ela, com o Scala vi-me a comprar as obras completas e a querer saber mais. Ainda estou neste "namoro" e já tenho debaixo de olho mais 2 livros para tentar entender Teresa de Jesus pelo olhar de uma filósofa e psicanalista:
"Thérèse mon amour", Julia Kristeva
Sobre o livro de Kristeva Confira Frederika Abbate no #SoundCloud
https://soundcloud.app.goo.gl/hx2zh
De um padre jesuíta também ele psicanalista de quem já li alguma coisa:
"L' Autre du désir et le Dieu de la foi ", Denis Vasse
Bem me parecia que ia gostar muito do módulo sobre Mística...não sei se a conta bancária gostará assim tanto...
06/08/2021
Casa da Transfiguração
Oração ao Tempo
04/08/2021
Casa da Insónia
Tempo do Fogo
Dias de fogo Dia de mergulhar num silêncio limpo. Sem palavras, pensamentos, desculpas. Fechar os olhos e ver as fendas dos nossos "tem...
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