21/01/2021

Jesus Cristo



Um magnífico poema que expressa a experiência direta da transfiguração em Cristo, do que poderá ser uma visão poética da Redenção, verdadeira joia da espiritualidade mística e não-dual cristã: 

“Nós despertamos no corpo de Cristo
à medida que Cristo desperta nos nossos corpos
e a minha pobre mão é Cristo. Ele entra
no meu pé e é infinitamente eu. 

Movo a minha mão e maravilhosamente 
a minha mão torna-se Cristo, torna-se todo Ele
(pois Deus é indivisivelmente 
inteiro, sem costura na sua Divindade).

Movo o meu pé e de imediato
ele aparece num relâmpago.
As minhas palavras parecem blasfemas? – Então
abre o teu coração a Ele

E deixa-te receber aquele 
Que se está a abrir a ti tão profundamente.
Pois se genuinamente O amamos, 
Nós despertamos dentro do corpo de Cristo

Onde todo o nosso corpo, em todo o lado,
cada mais escondida parte dele,
é reconhecido na alegria como Ele.
E Ele torna-nos totalmente reais.

E tudo o que está ferido, tudo
o que nos parecia escuro, áspero, vergonhoso,
mutilado, feio, irreparavelmente 
mutilado, é Nele transformado

e reconhecido como inteiro, adorável,
radiante na sua luz.
Nós despertamos como o Amado
em cada última parte do nosso corpo”


 São Simeão, o Novo Teólogo (949-1022), “Corpo de Cristo"







03/01/2021

Pedras no Caminho


Quando era miúda gostava de caminhar aos saltinhos!
Está-se mesmo a ver o que deu tanta energia…
Fosse o caminho plano, ou não, saltaricar era obrigatório, assim como… cair, raspar os joelhos nas pedras, lascar as mãos e levar uns tabefes dos pais…

Esta lembrança de criança surgiu enquanto refletia sobre a história da Igreja. Pus-me a pensar:" E se as várias fases desta História fossem pavimentos? Como seriam?
Calcetados com que pedras? Doíam nos pés?
Quantas quedas já demos como tribo a caminho do Reino? Que cicatrizes trazemos? Quantas feridas abertas…
Tudo começou com tanta Alegria! Onde tropeçamos?
Porque nem sempre o chão foi meigo, e muitas das quedas abriram brechas…

Afinal, tudo não começou com uma pedra deslocada do túmulo?!
E até um tal Simão levou com a alcunha de Pedra!

Pedras…
Pedra angular
Pedra de tropeço
Pedras onde caem sementes
Pedras que servem para apedrejar
Pedras as cabeças dos apóstolos que não entendem… as nossas também não…
Pedras…

No princípio o Caminho foi feito de pedras que mataram Estevão.
Depois, de pedras que feriram os pés daqueles que fugiam da perseguição. Mas, passados anos, essas pedras criaram chão! 


O império romano criou estradas e levou o cristianismo bem longe! Umas vezes a bem, outras a mal. No meio de tanta exuberância  o Império virou cristão, e as ideias pululavam …. tiveram de pôr ordem e juntar todos os caminhos num primeiro chão onde a Igreja se quis una. 

O Chão dos Concílios ….

Era preciso pensar e articular as correntes. Mas,  a mensagem quase ficou enredada num labirinto de questões sobre a conciliação entre a divindade de Cristo e a unidade de Deus; sobre a "convivência" entre a natureza humana e divina em Cristo. Para dificultar, as heresias abundavam … Mas, o Espirito Santo pairava por aquelas bandas e, desde Jerusalém, até Calcedónia, o Chão de vários Concílios foi sendo sucessivamente feito e refeito. Entre erros, fragilidades e muita inspiração, foi ladrilhado em 5 séculos o Chão seguro em que tudo depois assentou…

Muito Chão foi feito desde então, mas, com desafios equivalentes, só penso no Chão do Vaticano II…ainda o estamos a construir e como nos primeiros séculos, estamos a aprender a deixar  para trás o ruído que nos oculta da Fonte… pedra a pedra a desfazer as encruzilhadas tecidas com areia do Poder. São muitos os becos sem saída e os labirintos. Está a ser um trabalho duro!! Mas a Alegria que atravessa o Tempo faz-nos dançar em todos os caminhos, pois o mundo é de quem o percorre como as crianças: saltitando com confiança em qualquer chão, arrumadinho, ou em "pedra aberta" e mesmo nas quedas, rapidamente as lágrimas se transformam em risos e venha o que vier, o colo do Pai/Mãe está por perto. 

02/01/2021

No Princípio...




O meu olhar sobre a  Igreja no Tempo,  é um olhar como quem folheia um álbum de fotos de família...a família "Cristã", com tudo o que isso implicou e implica na tela da História.  


Existem trisavós com quem me identifico e, tem outros parentes, uns mais próximos, outros perdidos nas brumas do tempo, de quem não tenho apreço algum. De alguns tenho até vergonha... foram um desastre...mas a maior parte destes familiares fazem-me estourar de orgulho! 

Todos,  com as suas fragilidade ou os seus dons, fazem parte desta viagem ao longo dos tempos... 

Mas, por mais voltas que dê a esta história,  o certo é que isto tudo começou muito mal...

...aquele Jesus que está no Início, nasceu humilde. Anónimo. Numa aldeia perdida na Galileia. Deu-se com gente que era renegada. Trocou as voltas às convenções  e deu voz às mulheres. Até a família desconfiava dele! E,  morreu como um malfeitor…

Contudo, de que Força era feito este homem Jesus, para com um punhado de apóstolos carregados de defeitos, terem fundado uma religião?

O que os levou a acalentar uma mensagem contra a corrente?

A jurar a pés juntos que o tinham visto ressuscitado?

Talvez o impacto de um Amor  infinito, fosse o que teve ressonância no coração  daqueles homens e mulheres...talvez eles tivessem percebido a pulsação na cadência do Pai…. Daquele Abba de que Jesus tinha a boca cheia. Eles tinham feito a experiência também…

Ficou-lhes tatuada no coração.

Foi o impacto de um Amor tão íntimo vivido na pequena comunidade,  que atravessou séculos e foi construindo o homem por dentro! Quase como se eles tivessem aprendido a música desse amor e, ao longo dos séculos tenham andado a tentar entender as palavras.  

Homens feitos a aprender a falar a "língua" de Jesus...umas vezes bem, outras vezes a meter os pés pelas mãos.

Nem sempre a letra dessa música foi profunda e leve como era a de Jesus, mas quando atinaram com a música! Foi um festival! 

Passados mais de 2000 anos honramos os passos de quem nos precedeu, e guardamos no mais fundo de nós, o rumor desse profeta que passa sem alarido e se cruza com as vidas simples dos homens. Ainda hoje! 


01/01/2021

A Doutrina


(Imagem: cartilha da "Comunhão Solene" do meu pai)


Era domingo,  vestiram-me o melhor vestido e os sapatos de verniz. Disso eu gostei!

À minha volta zumbiam recomendações, a maior parte delas a começar por um "Não". 

Ia fazer o exame para a minha primeira comunhão. Sim, faziam-se exames! Seria comunhão "privada" antes de frequentar a catequese. 

Fui moldada pelo ensino doméstico da "doutrina", na versão da minha avó paterna. De nome Piedade, era uma mulher rígida, pouco afetuosa e, que levava à risca a sua missão de me fazer memorizar um rosário de orações, as necessárias para eu me aproximar do altar com os adultos. Meu Deus, o quanto me custou memorizar a "Salve Rainha"! Mas no dia designado, julgo que terá sido 27 de fevereiro, o mesmo dia do aniversário do meu pai e do meu batismo há 60 anos atrás, lá me apresentei ao abade de Paranhos.

Era um homem corpulento, com uma voz autoritária. Imenso! Eu, na altura dos meus 6 anos (a tal idade da razão, diziam)  fui presente ao inquiridor na sacristia da igreja. Ele olhou para mim de alto a baixo, sério. Religião era assim, sem sorrisos, achava eu… e começou a perguntar...Pai nosso??… Ave Maria??…mas, eu fiquei qual estátua de sal! Nem uma palavra saiu  da minha boca! Irritado, ele insistia. Aterrorizada, eu engolia a "Doutrina" mal digerida e só queria fugir dali! O abade, do cimo da sua sobranceria virou-se para os meus pais, envergonhados com a minha triste figura e disse-lhes: "Eu só permito que ela comungue, porque sei a família de onde vem"!!

Eu não percebi nada. Mas na missa que se seguiu, fui encaminhada para a fila  da comunhão e entrei para a equipa dos grandes!  Queria sentir-me feliz, mas não...foram tantos os avisos, os sinais proibidos, que só pensava que já estava farta daquela "idade da razão"! Afinal, a partir daquele dia estava sujeita a uma série de interdições. E nesse mesmo dia, senti que tinha perdido a inocência...algo se tinha quebrado dentro de mim…

E foi assim que comecei a ter consciência do que era ser cristã. Já sabia que o era por vontade dos meus pais através do batismo. Sentia pertença a este termo "cristã", como se fosse uma espécie de sangue que me corria nas veias igual ao da família. Mas não sabia a razão… Por isso, naquele dia não percebi o significado de ser admitida "à mesa"...

Coisas do outro século…

Mas, aqui estou, com mais um dígito na idade à frente do 6. 60!

De regresso às origens! Rumo casa de partida...

Agora com caminho feito e, certamente,  com a inocência resgatada! Em busca do que é esta família de cristãos unidos pelo mesmo Jesus. 

Numa espécie de "exame" que a mim mesma me coloco, agora na idade madura …

Sem abade mostrengo, mas em confronto com os meus "mostrengos" . Com todas as deFormações que a vida armazenou em mim. Com todos os seus encantos.

Sou eu mesma a propor-me a "exame". A correr riscos com a Fé, porque aprofundá-la é correr o risco de a perder…ou não!

Sei que já não a perco, mas conheço-lhe os silêncios. 

O tempo dos anjinhos e da adesão inocente ao pensamento mágico ainda me habita, Graças a Deus! Mas também me mordem as dúvidas, as inquietações e, o pior de tudo, as certezas…

Da Vida, sei do êxtase e sei do deserto. Mas, já não tenho medo como quando tinha 6 anos e achava que religião era coisa de memória e de gente sem sorrisos.

 A Fé é um caso sério e estou nesta relação há demasiado tempo, para não saber a trabalheira que dá explicar o inexplicável…

O Scala é a oportunidade de que estava à espera.

Finalmente, vou (re)Começar!




Tempo do Fogo

Dias de fogo Dia de mergulhar num silêncio limpo. Sem palavras, pensamentos, desculpas. Fechar os olhos e ver as fendas dos nossos "tem...